domingo, agosto 19, 2007

Sobre o poema

Foto de Bill Kane


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.



Herberto Helder



Para a Isabel que me distinguiu com o prémio Blog Cinco Estrelas. A Encosta do Mar é feita de escolhas e todas as estrelas são devidas, apenas, aos poetas que me emprestam as palavras.
Obrigada, Isabel, por esta distinção e pela amizade demonstrada nos teus comentários.


.

10 Comments:

Blogger Sophiamar said...

Ainda que as palavras que usas sejam emprestadas pelos poetas não deixas de ter mérito. O mérito da escolha é inteiramente teu.Mas, além da selecção, cuidada e criteriosa,chega ao lado de cá da encosta todo o afecto que pões na elaboração do post.
És uma adorável menina doce.És mesmo um poema.
Obrigada pela tua ternura, pamizade e simpatia.
Para a minha encosta preferida mando muitos beijinhos

11:04 da tarde  
Blogger hfm said...

Belíssimo este poema feito de imagens fortes e de palavras que se encadeiam numa poética tão pura.

11:05 da manhã  
Blogger Fernanda e Poemas said...

Ana, Lindo este poema.
Parabéns pela escolha.
Lindo!!!!!!!!

Beijos

Fernanda

2:36 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
,
in) herberto helder
,
jinos
*

4:01 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

Vim deixar beijinhos na encosta que melhor vista tem.
Que este dia venha carregadinho de coisas boas.
Um abracinho grande e apertado

9:31 da manhã  
Blogger inominável said...

vou encostar-me por cá, pode ser?

4:16 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

Deixo mil beijos nesta encosta doce, querida, amiga.
O mar é a minha paixão, tu, Ana, uma terna amiga que me deixa muito feliz quando por aqui está.

10:46 da manhã  
Blogger Elza said...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito original, parabéns 2x!
rsrs...
Bom fim de semana
=]

5:10 da manhã  
Blogger lena said...

Ana, a minha visita é de silêncios, mas hoje não podia ficar indiferente ao poeta que mais leio

obrigada por aqui o partilhares. herberto helder sabe viver dentro das palavras e saborear cada um dos seus versos é delicioso

com carinho para ti:


Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.


herberto helder


um abraço meu, o cheiro a maresia e a ternura com que leio o teu belo cantinho

lena

2:30 da tarde  
Blogger delusions said...

Foi merecido certamente...

"E o poema faz-se contra o tempo e a carne."

Bjs*

4:02 da tarde  

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