quarta-feira, fevereiro 17, 2016

É preciso não saber ...




É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores , dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza.



Alberto Caeiro
de "O guardador de rebanhos"

domingo, junho 07, 2015



Nas estantes os livros ficam
( até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa . O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
( amor das coisas mudas
que sussurram )
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.



Pedro Mexia
(in Duplo Império)

domingo, abril 26, 2015

Noite



Noite de folha em folha murmurada,
Branca de mil silêncios, negra de astros,
Com desertos de sombra e luar, dança
Imperceptível em gestos quietos.


Sophia de Mello Breyner Andresen
dia do mar 1947


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Os livros



É então isto um livro,
este, como dizer? , murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração ( o nosso coração)
dizendo "eu" entre nós e nós?



Manuel António Pina
(in Como se desenha uma casa)

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Regresso


 
 
  Há tanto tempo ausente, vou regressar em breve .

domingo, junho 02, 2013

Apesar das ruínas e da morte

Foto de Gaylen Morgan  


Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.


Sophia de Mello Breyner Andresen
(in Poesia, 1944)


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sábado, maio 11, 2013

Amor


Pintura de Ferdinand Hodler


Escolhemos um incómodo estatuto,
meu amor: um pássaro incorrecto
(para poder voar) morrermos nele.
Mas gerámos alguns filhos eficazes,
ágeis, duradouros. Contemplando-os,
decorrem-nos tão céleres os dias,
nunca exactamente iguais,
nunca diferentes. É que
existe aquela máxima antiga
solidariamente jurada desde o início
de nossos compromissos:
Sê breve nas horas interiores,
mas por fora sê extenso, derramável
qual um rio. O fundamento do amor.

*

O amor visita o corpo,
o necessita. Lícito divaga
por sombrios lugares,
súbito rumorosos e a arder.
Romã, mentrastos - tantos cheiros
e sabores na docente,
digna espiral.
Tudo aberto em luz na câmara escura:
só porque dois mendigos alcançaram
uma migalha, seu
copo de vinho.
Amando. Ah, que intensos mil-
agres doces nos vêm do corpo.
Que incandescente aptidão.

*

Ora, não digam que não
basta o amor
para resgatar o tempo exausto.
Este acto minucioso,
esta sociedade
por que nos ficamos longamente
gratos e escorrendo.
Nem digam que o amor
é arbitrário:
ele elege e fere
doméstico
quem morre de ferir. Que sorte
(digam antes) esta esgrima, este estar
em tantas posições de gritar.

.............


A. M. Pires Cabral
(in Artes Marginais )



segunda-feira, março 25, 2013

Suma teológica

Foto de Gaylen Morgan



Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.



Jorge de Sena
( in Coroa da Terra )

quarta-feira, março 06, 2013

Navegação à vela

Foto de Zacarias da Mata



Segue:
tens nas bússolas todos os nortes
e nos sextantes
as alturas de todas as estrelas,
que foram feitas só para te guiar.

Segue,
nos teus mapas
estão marcadas todas as loxodromias
e nos portos
os cais mansos
estendem-te os braços maternais.

Vai
pelo caminho seguro
na certeza de aportar.
Vai
nos vapores das companhias
com baleeiras nos decks
e S.O.S. nas telegrafias
e cintos de salvação.

(...)

Vai pelos caminhos seguros
nos vapores das companhias
com a certeza de aportar...
deixa
que eu continue sendo
o último tripulante
da fragata naufragada
neste mar dos tubarões.



Joaquim Namorado
( in Aviso à Navegação)

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segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Paixão

Foto do Google




Podia escrever o teu nome num vidro embaciado ou
segredá-lo a uma borboleta negra.

Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.

Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação.



Jorge Sousa Braga
( in O Poeta Nu )


segunda-feira, fevereiro 04, 2013

A presença mais pura

Foto de Ben Goossens

Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
" a que distância da língua comum deixaste
o teu coração? "

a altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um " não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
" a que distância deixaste
o coração?"  


José Tolentino Mendonça
( in Baldios )

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sábado, janeiro 19, 2013

Saber esperar alguém

Foto de Stefano Granata

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos , ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti --------------
-------------------  até que a dor alegre recomece .


Maria Gabriela Llansol
(in o começo de um livro é precioso )


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segunda-feira, janeiro 07, 2013

Os amigos

Foto de Ursula


Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


Herberto Helder
(in Poesia Toda )


....


A todos os amigos da Encosta do Mar, um feliz 2013 !

domingo, dezembro 09, 2012

Novembro ...

Foto de Ursula I Abresch

Novembro apagou nas buganvílias
seus nomes brancos, roxos, escarlates.

É mais difícil regressar a casa:
o caminho disfarçou, emudeceu
seu rosto nos muros e nas grades.

- Por onde seguiremos
sem que o outono espesso nos trespasse?


José Bento
(in Um sossegado silêncio )



quinta-feira, novembro 29, 2012

Aforismo

Foto de Szabolcs Sipos



Um murmúrio imperceptível durante o dia,
enche toda a penumbra nocturna.


Teixeira de Pascoaes
(in Aforismos )

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quarta-feira, novembro 21, 2012

Floriram por engano as rosas bravas



Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno; veio o vento desfolhá-las ...
Em que cismas, meu bem ? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caíste!...
Onde vamos, alheio pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Prescrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor - do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?



Camilo Pessanha
(in Clepsidra e outros poemas )


sábado, novembro 03, 2012

Memórias ao abandono

Foto de Vlad Dumitrescu



Memória ao abandono
a válvula do sono
aberta.
Desdobra panos
Hélice, ela
a grande borboleta
se é por pousar
já pousou -
despejando o vento
na abertura do vulcão
encaminhando a lava
no sentido giratório

Antes
tive medo de ter sono
agora
é planeta a planeta


Sérgio Godinho
(in O sangue por um fio)

sábado, outubro 27, 2012

Azul ar

Foto de Gaylen Morgan

azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu



Alexandre O'Neill
(in Anos 70 - poemas dispersos )


sábado, outubro 20, 2012

Da fala

René Magritte



Quando ainda não sabia as palavras possíveis
para passar entre voz e silêncio dos outros,
tal como entre troncos das florestas mudas,
eu falava com as nuvens que vinham
sobre nós a cantar, de trémulas asas,
e aspergiam os aromas de êxtase.




Fiama Hasse Pais Brandão
(in As Fábulas)

sábado, outubro 13, 2012

Provérbio

Foto de Mel Brackstone


A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra.


Carlos de Oliveira
(in Trabalho Poético)

sábado, outubro 06, 2012

Faz-se luz



Faz-se luz pelo processo
da eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca



Poema e pintura de Mário Cesariny de Vasconcelos

sábado, setembro 29, 2012

Eu não existo sem você




Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim.
Eu sei e você sabe que a distância não existe,
Que todo grande amor só é bem grande se fôr triste.
Por isso, meu amor, não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos me encaminham para você.

Assim como o oceano só é belo com luar,
Assim como a canção só tem razão se se cantar,
Assim como uma nuvem só acontece se chover,
Assim como o poeta  só é grande se sofrer,
Assim como viver sem ter amor não é viver,
Não há você sem mim e eu não existo sem você.


Vinicius de Moraes

...

Muito sensibilizada por este vídeo , dedicado à Encosta do Mar por Isabel Bogalho, autora do blog Música Aquática, com música interpretada por ela própria.


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sábado, setembro 22, 2012

Ondulação

Foto de Karchmarsky



O luar ondula
fluindo e refluindo
para não acabar a maré cheia
nesta praia onde
ponderável eu me encontro indo
- o pensamento em rumos ignorados
e ao sabor dos presságios ...

Em breve, à minha volta no areal,
esperanças, de branco, vaporosas,
chorando alto naufrágios
à vista da magia de seus mundos,
com suas lágrimas,
quais enxadas na terra, poderosas,
cavarão sulcos fundos.

E elas ali se hão-de enterrar
quando o luar fugir ...
Mas com elas enterrarei os meus insultos
à minha nobre angústia de vibrar,
à minha vã desgraça de sentir !



Edmundo de Bettencourt
(in Poemas de Edmundo de Bettencourt)

sexta-feira, setembro 14, 2012

Figuras de bruma ...

Foto de Krzysztof  Browko


Figuras de bruma
e de alma

iluminam-te o nome.

Acendem as águas
do mundo.

Figuras de névoa
e de sonhos

perfumam o ar
e o silêncio.

Dão-se ao vento
quando falas,

quando

eu corro atrás
das tuas palavras

como se fossem
pequenos frutos

as delícias vivas

que me pedem

os sentidos da escrita.



José Alberto de Oliveira
(retirado do blog do autor)

sexta-feira, setembro 07, 2012

Já a luz se apagou do chão do mundo

Foto de Roeselien Raimond


Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira ;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.


António Franco Alexandre
(in Duende )



quinta-feira, agosto 30, 2012

De cá para lá

Ruy Cinatti  ( retrato de Maluda )

3

A praia foi lugar de muita espera.
A maré molhou-te
De improvisos. Chegou a noite
E abriu-te as portas
Ao sol poente. A noite
Para os poetas.

5

Sei que não existes
Só porque o desejo.
O teu rosto
Corroído
Pelo fogo. Se nos encontram,
Rejuvenesces
E eu clamo : amo-te !

9

Paisagem
Cercada de mar profundo.
Montanhas, uma baía
Que a muitos se parece
Na idade, que não esquece
A poeira que há nas almas,
Nem as areias que as invadem.

17

Passaram dias sem que a vida ousasse
Sujar-me de atritos
E a vida foi um gesto de água
Intenso de tráfego
Na ilha. Finalmente, os dias ...



Ruy Cinatti
( in 56 Poemas )

quarta-feira, agosto 22, 2012

Mar português





Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar !

Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Fernando Pessoa
(in Mensagem)

domingo, agosto 12, 2012

Luís de Camões



Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

Luís de Camões



domingo, julho 29, 2012

O rio secou

Foto de Brent Mooers



O rio secou.
Subi leve à nascente
que falece.

Descesse, e era
o mar.



Luiza Neto Jorge
(in A Lume)



segunda-feira, maio 07, 2012

Nocturnas portas

Foto de Paul Boomsma


Portas, nocturnas portas , quando o que desejamos é um rasgão luminoso.
O vento da noite.

De olhos cerrados, num autocarro, até me perder. Vazio, indigente, puro, regresso suplicando compaixão. É tarde. O crepúsculo já pronunciou o seu nome e não sei onde fica a minha casa.
Rente aos muros , coração descalço, persigo o vento da noite, o murmúrio de uma voz.



Mário Rui de Oliveira
(in O Vento da Noite )

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