Sábado, Julho 04, 2009

Limites do amor

Foto de Ricardo aqui



Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direcção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.



Affonso Romano de Sant'Anna

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Quarta-feira, Julho 01, 2009

O gato

Chegou, há um mês, à encosta onde vivo. Instalou-se como se, desde sempre, a casa fosse sua. Companheiro dos dias sós, chama-se Félix, como é próprio de todos os gatos.


Um gato, em casa sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.


Nuno Júdice
In Assinar a pele ( antologia de poesia contemporânea sobre gatos)


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Sábado, Junho 27, 2009

Pranto para comover Jonathan

Foto de Miguel Costa



Os diamantes são indestrutíveis?
Mais é o meu amor.
O mar é imenso?
Meu amor é maior,
mais belo sem ornamentos
do que um campo de flores.
Mais triste do que a morte,
mais desesperançado
do que a onda batendo no rochedo,
mais tenaz que o rochedo.
Ama e nem sabe mais o que ama.



Adélia Prado

(de O Pelicano ,
in Com Licença Poética- Antologia)


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Quarta-feira, Junho 24, 2009

Não me importa o amor que tenhas

Foto de Margarida Delgado



não me importa o amor que tenhas
e o amor não se dá nem tem nada para dar
as tuas mãos nas minhas são o tempo que volta
a mover sombras de nanquim, e nos teus lábios
é o sabor a tinta que me atrai.
Ebbro d'inchiostro é mais bonito, quando
ao calor de agosto as bocas se desatam
e as línguas mordem a brancura do linho.




António Franco Alexandre
( in Quatro caprichos)


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Sábado, Junho 20, 2009

O que me dói

Foto de Kregon aqui


O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão ...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.



Fernando Pessoa
(in Cancioneiro)

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Quarta-feira, Junho 17, 2009

Camané "Sei de um Rio"



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Meu amor, dá-me os teus lábios!
Dá-me os lábios desse rio
Que nasceu da minha sede!
Mas o sonho continua

E a minha boca (até quando?)
Ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio
Sei de um rio

Sei de um rio
Ai !
Até quando?


Poema de Pedro Homem de Mello



Foi com este tema que se iniciaram os concertos realizados esta semana no CCB , " Carta Branca a Camané".
Na sequência de um convite que lhe foi feito, o fadista concebeu uma apresentação de características únicas, onde se conjugou a linguagem do Fado, o piano de Mário Laginha e a sonoridade da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Um desafio vencido!

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Sábado, Junho 13, 2009

Vós, que de olhos suaves e serenos

Leda ( Leonardo da Vinci )


Vós, que de olhos suaves e serenos,
Com justa causa a vida cativais,
E que os outros condenais
Por indevidos, baixos e pequenos;

Se ainda do Amor domésticos venenos
Nunca provastes, quero que saibais
Que é tanto mais o amor depois que amais,
Quanto são mais as cousas de ser menos.

E não cuide ninguém que algum defeito
Quando na cousa amada se apresenta,
Possa diminuir o amor perfeito;

Antes o dobra mais; e se atormenta,
Pouco e pouco o desculpa o brando peito:
Que Amor com seus contrários se acrescenta.




Luís de Camões
(in Sonetos de Luís de Camões ,
escolhidos por Eugénio de Andrade,
Assírio & Alvim, 2002)


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Terça-feira, Junho 09, 2009

Sobre o lado esquerdo




De vez em quando a insónia vibra com a nitidez dos sinos, dos cristais. E então, das duas uma : partem-se ou não se partem as cordas tensas da sua harpa insuportável.

No segundo caso, o homem que não dorme pensa:
" o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração".



Carlos de Oliveira
(in Trabalho Poético)


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Sábado, Junho 06, 2009

Voltar

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O tema Voltar de Rodrigo Leão, do post anterior, não pertence ao novo álbum ontem lançado, mas sim ao cd " O Mundo " editado em 2006.

...................

Rodrigo Leão -"Voltar"


...

Quanto eu não daria
Para poder voltar atrás
Volta pro meu peito
Daqui não saias mais

...

A melancolia da música de Rodrigo Leão voltou a estar presente, ontem à noite, no lançamento do seu novo álbum , " A Mãe".
Para ouvir e gostar sempre.

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Domingo, Maio 31, 2009

Este é o Maio

Primavera (Sandro Botticelli)
Galeria Uffizi - Florença


Este é o maio, o maio é este,
Este é o maio e floresce.
Este é o maio das rosas,
Este é o maio das formosas,
Este é o maio e floresce.
Este é o maio das flores.
Este é o maio dos amores,
Este é o maio e floresce ...



Gil Vicente
(in Os Poetas Lusíadas)

A regressar, ainda de olhos e alma a florir.
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Sábado, Maio 23, 2009

O mar atinge-nos



Auto-retrato


O meu caminho é um barco sem memória.
O meu destino é o que o vento quer.
Há um rumor de velas
que o próprio mar devora.
O meu caminho é onde o mar estiver.



Maria Azenha
( no belíssimo cd - O Mar Atinge-nos - entre o rumor das palavras e os sons da guitarra)

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Vou estar ausente durante alguns dias. Voltarei com o olhar cheio de coisas belas.
Obrigada pela vossa presença aqui na minha encosta.
Até breve.
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Quarta-feira, Maio 20, 2009

Dispersão

Foto de Pierre Kessler aqui


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje , quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(...)

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...




Mário de Sá- Carneiro

Nasceu em Lisboa, em 19 de Maio de 1890

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

Traduzir-se

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O poema fica ainda mais belo na voz de Adriana Calcanhoto e musicado por Fagner.
Obrigada, Pi.

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Domingo, Maio 17, 2009

Traduzir-se

Foto de Pedro Gomes aqui



Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém;
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão;
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera;
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta;
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente;
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem;
outra parte
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte_
será arte?



Ferreira Gullar

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Quinta-feira, Maio 14, 2009

As casas

Pintura de Maluda



As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas



Luiza Neto Jorge
(in Terra Imóvel)

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Segunda-feira, Maio 11, 2009

Gota d'água - Chico Buarque

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Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota de água ...

.................................................................................
Depois de cinco espectáculos em Lisboa, a peça musical "Gota de água", de Chico Buarque e Paulo Fontes, vai continuar em digressão pelos palcos portugueses até ao fim de Maio.
Criada em 1975 , como adaptação da tragédia " Medeia " de Eurípedes à realidade brasileira, e agora com uma abordagem contemporânea e novos arranjos musicais, emociona o público pela sua carga poética.

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Sexta-feira, Maio 08, 2009

Ausência

Foto de Anke Merzbach



Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência , essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.




Carlos Drummond de Andrade

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Terça-feira, Maio 05, 2009

Epígrafe





As pontes multiplicam o cansaço. Porém, há duas margens para o deslumbramento _________ nas cidades felizes, é costume atravessar o rio sem lhe tocar.



Manuela Parreira da Silva
(in O Álbum de Vishnu)


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Sexta-feira, Maio 01, 2009

Livros e flores

Foto de Sophie Thouvenin



Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?



Machado de Assis
(in Falenas)

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Segunda-feira, Abril 27, 2009

Jacques Loussier - Air on the G String

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"Não sou um músico de jazz, interpreto Bach através do jazz e de outras linguagens não clássicas"
Jacques Loussier

O que é certo é que Jacques Loussier, 50 anos depois do lançamento do primeiro Play Bach, continua a surpreender e a fascinar, tal como aconteceu sábado passado no seu concerto nos Dias da Música, no Centro Cultural de Belém.

Sobre ele comentou Glenn Gould : " Play Bach é uma boa forma de ouvir Bach". Eu concordo, e como eu, os milhares de pessoas presentes no espectáculo, que, no final, lhe dedicaram uma fabulosa ovação.

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Quarta-feira, Abril 22, 2009

Em estado puro



Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem caminha, em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se sai da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a própria condição humana. Como benção ou danação, o escultor devolve-nos a vida em estado puro.

Viver é também isso. Percorrer um campo de anémonas, quase com vergonha do que trazemos escondido, na mão.



Mário Rui de Oliveira
(in O Vento da Noite)

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Sábado, Abril 18, 2009

Existe em nós

Foto de Michel B-M aqui



Existe em nós
um sentido especial para a poesia,
uma disposição poética.
A poesia é absolutamente pessoal,
e por isso indefinível.
Quem não souber nem sentir
de forma imediata
o que é a poesia,
nunca poderá aprendê-lo.
Poesia é poesia.
Diferente, como a noite do dia,
da arte da fala e da palavra.




Novalis
(in Fragmentos)
Tradução de João Barrento

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Porque concordo em absoluto, e pela forma poética como está escrito, deixo aqui um comentário feito ao post anterior :
"O Mar atinge-nos" de Maria Azenha é a voz urbana do mar, eco das grandes ausências na geografia dos náufragos em cidades de betão. É a viagem das guitarras pela voz. É a palavra que corre e canta a memória mais alta da poesia Lusitana"
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Terça-feira, Abril 14, 2009

Soubesse eu

Soubesse eu ... dizer como a poesia de Maria Azenha me atinge !

Quarta-feira, Abril 08, 2009

... Nada ser




nada sou!
e contudo, sou.

sou, porque tu és,
porque fazes com que seja.

vamos dar asas ao desejo,
explorar o lugar onde o tempo pára
ou atravessar a pálida névoa
no cosmos das águas tranquilas,
onde reside o verbo,
onde o espírito se aquece
e a alma se refresca.

vamos dar asas ao desejo,
mergulhar no impulso do inúmero
ou calcorrear as cascatas do céu
no infindo das terras sagradas,
onde tudo é harmonia,
onde se vê o incomensurável
e se sente o improvável.

sim, vamos dar asas ao desejo!
deixar que ele nos leve à génese do ser
e ser qualquer nudez na fluidez do nada.

se nada sou
e mesmo assim sou,
deixa-me Nada permanecer
e contigo apenas Ser.


Vicente Ferreira da Silva
(Do Inatingivel )



Parabéns, Vicente, pelo lançamento de mais um livro. Foi bom estar presente ... a poesia liga as pessoas com elos luminosos.

Para todos os que visitam a Encosta do Mar, deixo os meus votos de uma Boa Páscoa.

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Sábado, Abril 04, 2009

Conhecimento maduro


Desenho de Almada Negreiros




Passa-se com os livros uma coisa semelhante ao que sucede com um novo conhecimento que travamos com alguém. Num primeiro momento experimentamos um profundo prazer em encontrar coincidências gerais de opinião ou ao sentirmo-nos tocados num aspecto importante da nossa existência. Só depois , quando o conhecimento se aprofunda, começam a surgir as diferenças. Nessa altura o comportamento inteligente caracteriza-se pela capacidade de não retroceder imediatamente, como muitas vezes acontece na juventude, e de, pelo contrário, reter o que há de coincidente, enquanto se vão esclarecendo mutuamente todas as diferenças, sem se pretender chegar a acordo absoluto.


Goethe
(in Máximas e Reflexões)

Texto encontrado em Ao Longe os Barcos de Flores .
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Terça-feira, Março 31, 2009

Dia após dia


Foto de Dulce B. , encontrada em Olhares .


Dia após dia, a glória da primavera rivaliza com a glória do sol.
As estradas que serpenteiam até à cidade na colina cheiram a flores de amendoeira.
Quanto tempo até que os fios do coração, livre de cuidados,
Flutuem, como a alfazema, por longa distância.



Li Shang-Yin
(in Chuva na Primavera e Outros Poemas)
Tradução de José Alberto Oliveira


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Sexta-feira, Março 27, 2009

Atrium - (excerto)


Foto de Silenciosamente
(www.olhares.com)



(...)

________ hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi : aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar ...
________ releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar : as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo, o vazio devora-nos. onde estivémos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

________ não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas de um espaço oco prescruto o eco do meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
________ sento-me no cimo do meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.



Al Berto
(in À Procura do Vento Num Jardim D'Agosto)


Ainda em cena, até 5 de Abril, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, A Noite , um espectáculo do Teatro O Bando, com base na poesia de Al Berto.

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Segunda-feira, Março 23, 2009

A casa onde às vezes regresso é tão distante


Foto de Dave Nitsche
(www.onexposure.net)



A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração




José Tolentino Mendonça
(in A que distância deixaste o coração )


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Quarta-feira, Março 18, 2009

Nomeei-te no meio dos meus sonhos




Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor.



Ruy Belo

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Sábado, Março 14, 2009

Arrojos




Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o nome das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas
Eu ergueria os vales mais profundos
E abalaria as sólidas montanhas.

E se aquela visão de fantasia
Me estreitasse ao peito alvo de arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.


Cesário Verde
(in O Livro de Cesário Verde)


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Segundo o dizer de Fernando Pessoa, que muitas vezes ocupou a mesa do Martinho da Arcada representada na foto, Cesário Verde foi um mestre que "ensinou a observar em verso".


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