sábado, março 20, 2010

Fonte




No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e orgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos. Porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos, embrulhados nas mãos
e na agudez de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível amar tudo
e tudo ser reencontrado
por dentro do amor.




Herberto Helder
(in Poesia Toda)

.

7 Comments:

Blogger A.S. said...

Querida Ana...

Continuas a deliciar-nos com bela poesia!
Aqui, neste final de sábado, chove torrencialmente... subitamente, sinto uma vontade enorme de escrever!

Deixo-te beijos...
AL

7:56 da tarde  
Blogger Maria said...

Não é por acaso que escolhes Herberto Helder...
Foi bom estar contigo. Afinal tão perto. Há tantos anos...

Beijo, Ana.

12:53 da manhã  
Blogger Vieira Calado said...

Desejo-lhe um bom resto de fim de semana.

Beijoca

9:44 da manhã  
Blogger Carlos Machado Acabado said...

São: No dia Mundial da Poesia, vim visitar-te para te oferecer um poema de António Machado, o meu Poeta preferido.
Espero que gostes...
[Depois, diz-me se sim, ham?...]

A UN OLMO SECO
Al olmo viejo, hendido por el rayo
y en su mitad podrido,
con las lluvias de abril y el sol de mayo
algunas hojas verdes le han salido.

¡El olmo centenario en la colina
que lame el Duero! Un musgo amarillento
le mancha la corteza blanquecina
al tronco carcomido y polvoriento.

No será, cual los álamos cantores
que guardan el camino y la ribera,
habitado de pardos ruiseñores.


Ejército de hormigas en hilera
va trepando por él, y en sus entrañas
urden sus telas grises las arañas.


Antes que te derribe, olmo del Duero,
con su hacha el leñador, y el carpintero
te convierta en melena de campana,
lanza de carro o yugo de carreta;

antes que rojo en el hogar, mañana,
ardas en alguna mísera caseta,
al borde de un camino;
antes que te descuaje un torbellino
y tronche el soplo de las sierras blancas;

antes que el río hasta la mar te empuje
por valles y barrancas,
olmo, quiero anotar en mi cartera
la gracia de tu rama verdecida.

Mi corazón espera
también, hacia la luz y hacia la vida,
otro milagro de la primavera.

9:25 da tarde  
Blogger A.S. said...

Querida Ana...

Voltei para te trazer um excerto de um poema do Herberto Helder que gosto muito...


FONTE

V

Apenas te digo o ourode uma palavra no meio da névoa,
formusura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver a tua cabeça de mãe
com platina entre a aragem. Que se inspire na seiva o vermelho da face
adormecendo no vinho, acordando para o inicio das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão a a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovivel.

(***)

... para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.
(***)


BeijOOO
AL

5:49 da tarde  
Blogger Maripa said...

A "Fonte" ...a sensibilidade de Herberto Helder no belíssimo poema que escolheste...

Beijinho,Ana.

10:51 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
herberto helder
a fonte de palavras
que nos falam !
,
conchinhas maternais,
,
*

12:49 da tarde  

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