sexta-feira, fevereiro 26, 2010

O navio de espelhos

.
O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão não traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo



Poema e voz de Mário Cesariny
Música de Rodrigo Leão (cd - Os Poetas)

.


9 Comments:

Blogger ADiniz said...

Dio...
Estou arrepiada
com tudo o que vi, ouvi e senti,
terei um movimento por dias que se seguem e ...

“Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga"

Uma semente, um copo d’água, um abraços longo e um bom final de semana a vc Ana, como sempre um belissimo post.

11:02 da manhã  
Blogger São said...

Excelente opção.
Nunca encontrara Cesariny na Net...

Um bom fim de semana.

8:06 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
gostei, amiga,
,
lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte .
,
in-mário cesariny,
,
conchinhas,
deixo,
,
*

8:34 da tarde  
Blogger Baby said...

Mário Cesariny abriu o seu coração e despejou o vazio que albergava no seu coração.
Muito belo, este poema.
Obrigada!
Bjs.

12:10 da tarde  
Blogger rouxinol de Bernardim said...

Beleza intemporal, um achado...

12:44 da tarde  
Blogger Vieira Calado said...

Não conhecia.

Mas há sempre quem nos traga
o desconhecido...

Quanto a uma exposição de poesia ilustrada... bem... ela está pronta.
Só falta um local para expor.
Neste momento tenho em Faro, no Pátio das Letras, uma outra de poesia experimental.
Pode ser que seja lá...

Beijoca

10:53 da tarde  
Blogger Maripa said...

Sulcando um mar de poesia, a voz e as palavras de M. Cesariny, navegam ao som de bela música.

Obrigada,Ana,por mais esta pérola.

Beijinho.

11:27 da tarde  
Blogger A.S. said...

Querida Ana,

Cesarini! Os seus poemas tem um estilo inconfundivel!
Excelente o videoclip com a voz do poeta!

Muito lindo Ana!!!


Um terno beijo
AL

7:49 da tarde  
Blogger maria manuel said...

sempre gostei muito deste poema de Cesariny! maravilhoso, e maravilhoso ouvi-lo dizê-lo. obrigada, Ana.

beijo.

11:28 da manhã  

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