sexta-feira, novembro 11, 2005

Memória dum pintor desconhecido


O vendedor (Mário Dionísio)



Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia

Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atómica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada

Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?



Mário Dionísio

17 Comments:

Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
Que também escreve... mas é assim desconhecido? Ou eu estou a confundir... :) Belo post.
Um beijo
Daniel

9:41 da manhã  
Blogger cm said...

Assobiando à Vontade - e da memoria parada face ao mundo tudo fica "pesadamente, a encher-se de silêncio e dignidade"
....
que deixe de ser desconhecido...
obrigado

10:04 da manhã  
Blogger AS said...

Prisioneiro em cidades tropeçando a todo o momento com grades invisíveis... Não será também isto uma janela engradada onde a baioneta será talvez mais mortífera?

Um beijo para ti Ana

3:58 da tarde  
Blogger Dilbert said...

É lindo Ana,
Aproveito para aqui te deixar uma beijoka com desejos de um óptimo dia e noite de São Martinho

4:47 da tarde  
Blogger Fernando Rozano said...

A cada post mais vontade tenho ficar por aqui. Texto maravilhoso, pintura fantástica. Beijos, Ana.

6:47 da tarde  
Blogger lique said...

Extraordinário o quadro e o poema! Tão bem expressa essa espera po tudo o que
"há de
e há de e há de
quando?"

Beijinhos, Ana. Um bom fim de semana

11:30 da tarde  
Anonymous zezinho said...

Só pode ser até à eternidade, Ana.
Gosto muito do Mário Dinísio e adorei ver aqui um dos seus quadros.
Beijo

9:46 da manhã  
Blogger palavras que escrevo said...

"Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade"

saudade que sinto dos seus quadros e poemas, e já passaram 10 anos

gostei de o ler aqui, nunca é demais

beijinhos

lena

4:09 da tarde  
Blogger romero said...

Estamos de vuelva, Ana :))
una imagen perfecta,con palabras preciosas :)
bueno fin de semana.
besitos

10:53 da tarde  
Blogger JPD said...

Do Mário Dionísio guardo uma memória de uma pessoa muito rigorosa e muito determinada na cultura de valores eticos e estéticos. Foi com enorme emoção que li a sua brilhante «A PALETA E O MUNDO». Tivesse aquele edição da Europa América o fulgor financeira para ilustração do texto com reprodução dos quadros mais significativos dos autores tratados e teria sido superlativa a divulgação da obra do Mário.
Bjs

12:41 da tarde  
Blogger Kalinka said...

ANA:
Cá continuas com as tuas belas poesias e imagens adequadas às mesmas...lá virá o tempo em que voltarei às poesias também, já tenho saudades, mas agora propus-me relatar as minhas férias e enquanto não terminar não vou mudar de tema, lógico.

Em toda esta poesia o que mais me marcou foi esta parte:
o brando olhar que guarda o meu desejo e só consigo ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas à baioneta marcadas por uma sentinela aos quatro cantos da janela gradeada do dia-
a-dia onde não há mais nada...!
Só de imaginar torna-se horrendo, e quantas pessoas passam por isto na vida real, mesmo sem estarem na prisão...há que pensar nisto.
Obrigada pelas tuas visitas ao «meu cantinho», volta sempre.
Bom fim de semana. Beijos.

12:47 da tarde  
Anonymous nina said...

Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos

adorei Ana
beijinhos

7:54 da tarde  
Blogger maat said...

muito belo.
Obrigada,Ana.


***
maat

9:05 da tarde  
Blogger Orfeu said...

Ana, as tuas escolhas e as tuas palavras são sempre especiais, mas estas disseram-me muito...

Um beijo e obrigado por todos os momentos que nos dás.

10:42 da tarde  
Blogger TMara said...

e será na hora 4ª da alba qnd o Sol e Lua se levantarem a par. boa semana. Bjs de luz e paz

10:52 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Fabuloso este poema!
Adoro as tuas escolhas e... com estes bocados se constroem coisas maiores...a memória e o sentir,o que me liga a alguém,enfim,,o ser com alguém...tu és especial ...Ana!
Um abraço imenso,adorei!
margarida

7:35 da tarde  
Anonymous zezinho said...

Vim dar-te um beijinho Ana. Raramente a palavra amizade faz tanto sentido quando é usada por ti. Por essa amizade incondicional, bem hajas.

9:02 da tarde  

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