domingo, setembro 30, 2007

Naturalidade




Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
europeias
e europeu me chamam.

Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.

Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.



Rui Knopfli
(in Memória Consentida)




Rui Manuel Correia Knopfli nasceu em Inhambane em 1932 e faleceu em Lisboa em 1997. A sua poesia constitui um dos edifícios fundadores da literatura moçambicana moderna.




.

14 Comments:

Blogger lena said...

como sinto cada verso

como sei o que quer dizer o seu sentir


vejo as cores e oiço os gritos dessa aves estranhas

um momento maravilhoso este e como o poeta sabe bem dizer o que é belo


deixo uma lágriga, a saudade é muita
e o silêncio vivo-o nas savanas...

um beijo

abraço-te com ternura

lena

7:12 da tarde  
Blogger maria m. said...

desconhecia a naturalidade moçambicana do escritor.

essa condição está bem presente no poema, belo e algo nostálgico.

8:57 da manhã  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
A fortaleza mergulha no mar
os cansados flancos
e sonha com impossíveis
naves moiras.
Tudo mais são ruas prisioneiras
e casas velhas a mirar o tédio.
As gentes calam na voz
uma vontade antiga de lágrimas
e um riquexó de sono
desce a Travessa da Amizade.
Em pleno dia claro
vejo-te adormecer na distância,
Ilha de Moçambique,
e faço-te estes versos
de sal e esquecimento.
,
in) Rui Knopfli
,
buzios nazarenos
*

8:01 da tarde  
Blogger Kalinka said...

Não sei se o que escreves tem a raiz de algum pensamento europeu. É provável... talvez.
Mas o que é certo, é que as imagens que colocas nos últimos posts, são todas de raiz africana, isso eu garanto; sinto-o nos olhares que deito de relance, não me quero embrenhar nos belos locais, pois assim a saudade apodera-se de mim e fico...triste!!! pois africana sou. Daquele solo, quente, acolhedor. Daquele cheiro intenso; daquelas praias de água transparente.
Pulsa-me o coração a um ritmo estrondoso. Trago no sangue uma amplidão de coordenadas geográficas e mar Índico.
Dentro de mim há savanas de aridez e planuras sem fim, com longos rios sinuosos.
Amiga, que bom que é poder recordar através dos teus olhos, a beleza da minha terra. Obrigado.

2:32 da tarde  
Blogger sonhadora said...

Uma semana de sonho.

Beijinhos embrulhados em abraçosssss

4:01 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

África, esse continente cheio de magia e encanto veio contigo.
Lindo poema!

Beijinhos, amiga doce

10:16 da tarde  
Blogger Maria said...

Li, reli, treli (?)
E fiquei-me a contemplar as palavras.
De tão belo acho que é pecado comentar....
Ficam apenas as palavras dele.

Obrigada. Beijinhos

10:58 da tarde  
Blogger Kalinka said...

Começo por desejar um excelente Fim de semana prolongado. O meu tem por finalidade descansar fisicamente e fazer umas arrumações de Outono.

AMIGA, vim espreitar a minha terra.

Na minha teimosia de fazer um 3º post sobre a letra F, faço destaque a um evento artístico que teve início a 29 de Setembro e termina a 31 de Dezembro, na Estrada Nacional (EN) 10, junto ao Seixal. Acolhe o Drive In Art 2007, que já vai na sétima edição. As trinta telas de enormes dimensões (2 m por 1,85 m) foram pintadas por vinte artistas, jovens e muito jovens (dos 15 aos 30 anos), e podem ser avistadas nos dois sentidos da EN 10 no troço entre as Paivas e o Fogueteiro. O vencedor (ah pois, isto é um concurso!) ganha 500 euros. Se o público não vai à arte...

Beijokas.

1:56 da manhã  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
Através de um irmão, tenho Moçambique no coração.
Um beijo
Daniel

10:18 da tarde  
Blogger DE-PROPOSITO said...

A foto prendeu-me a atenção. Tentei imaginar a imensidão.
Fica bem.
Felicidades.
Manuel

5:50 da tarde  
Blogger PostScriptum said...

Rui Knopfli é um marco na literatura lusófona, Ana.
A imagem faz adivinhar imensidões..
Beijinhos

10:52 da manhã  
Blogger Dar de Vaia said...

"há palavras que nos beijam como se tivessem boca"

xi

3:46 da tarde  
Blogger delusions said...

"Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico"

que lindo...obrigada por mostrares.

Bj*
Boa semana

4:56 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

MINHA AMIGA**********!
_DIZER O QUE?????
_ABRACO-A!!!!!

Heloisa
**********

8:13 da tarde  

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