sábado, outubro 13, 2007

Inhambane











Pai:
as maternas palavras de signos
vivem e revivem no meu sangue
e pacientes esperam ainda a época da colheita
enquanto soltas já não são as tuas sentimentais
sementes de emigrante português
espezinhadas no passo de marcha
das patrulhas de sovaco suando
as coronhas de pesadelo.

E na minha rude e grata
sinceridade filial não esqueço
meu antigo português puro
que me geraste no ventre de uma tombasana
eu mais um novo moçambicano
semiclaro para não ser igual a um branco qualquer
e seminegro para jamais renegar
um glóbulo que seja dos Zambezes do meu sangue.

.......

Oh Pai:
Juro que em mim ficaram laivos
do luso-arábico Aljezur da tua infância
mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo
onde minha mãe nasceu e me gerou
e contigo comungou a terra, meu Pai.
E onde ibéricas heranças de fados e broas
se africanizaram para a eternidade nas minhas veias
e teu sangue se moçambicanizou nos torrões
da sepultura de velho emigrante numa cama de hospital
colono tão pobre como desembarcaste em África
meu belo Pai ex-português.



José Craveirinha



Poeta maior de Moçambique, José João Craveirinha nasceu em Lourenço Marques ( Maputo) em 1922. Faleceu em Joanesburgo a 6 de Fevereiro de 2003. Escreveu dos mais belos e emblemáticos poemas que fundam a nacionalidade moçambicana.

.

10 Comments:

Blogger Maria said...

Ando feita tonta à procura do "Hamina e outros contos" e não encontro.....
Craveirinha - um poeta enorme de um país que adivinho bonito...

Beijinhos

3:27 da manhã  
Blogger maria m. said...

dos elos afectivos, com alguma nostalgia, a uma terra (Moçambique)!

8:54 da manhã  
Blogger hfm said...

Bom ler-te e ler Craveirinha.

11:21 da manhã  
Blogger Sophiamar said...

Ana querida, tentei comentar-te mas não consegui passar do post. Ontem, pouco depois de teres postado. fotografias e poema fascinantes. Continua minha doce amiga.

Beijinhos mil

7:38 da tarde  
Blogger Naeno said...

AO TEU OLHAR

Ao teu olhar que nunca me disse um não,
A ele, porque o mundo precisa, a luz,
Que rastreará todos os recantos e guiará
Os fracos de visão, os que não vêem
Pelos orifícios onde a vida penetra,
Por onde o amor se manifesta, a lua,
Que dele depende para ser tão clara,
Ao teu olhar, uma lágrima que banha,
Cairá um dia, e verás que o dia,
Virá toda claridade e veremos tudo,
Até o que não se deseja ver.
Ao teu olhar o meu se inclina,
Diante do lume intenso, numa neblina,
De estrelas cadentes todas que não cairão.
Ao teu olhar me mostro, quem sabe um dia,
Me verás inteiro como sou, um outro olhar
Fixo no teu, amando o teu, dentro do teu.
Ao teu olhar migalhas cairão ao chão,
E não colherás nenhuma
Porque julgarás pouco, e por não sobrar
Uma sombra por todo o deserto,
Se cumprirá e que desscanse ao teu olhar.

um beijo
Naeno

7:49 da tarde  
Blogger Amaral said...

Imagens que devem deliciar quem conhece, morou ou esteve nesses locais...
O poema é grandioso demais para ser comentado...
"...mas amar por amor só amo
e somente posso e devo amar
esta minha bela e única nação do Mundo"

12:04 da manhã  
Blogger PostScriptum said...

Retorno sempre aqui, Ana. Pela tua tremenda sensiblidade. E porque uma bela amizade nos une.
Beijos, querida amiga

9:57 da manhã  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
Grito Negro
,
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me
brutalmente do chão e
fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente
como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição arder vivo como alcatrão,
meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da
minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
,
in) José Craveirinha
*
xi
*

9:43 da tarde  
Anonymous Jo said...

Mas que lindo, Ana!

Não resisto a transcrever aqui excerto da autobiografia de Craveirinha, porque é simplesmente singela e mui bela.


Autobiografia

“Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.


Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato.


A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros. Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.


E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.


Nasci ainda outra vez no jornal "O Brado Africano”. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.

Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidata.

Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite."

3:54 da manhã  
Blogger Isabel said...

Não conheço Mocambique mas tenho pena e hei-de conhecer um dia.

Não conheço toda a obra de Craveirinha mas tenho pena e espero conhecer um dia.

Este poema é tocante para mim imagino para que tenha o sangue Portugues e Mocambicano a correr nas veias.

Deixo aqui um poema também dele que adoro:

QUERO SER TAMBOR - JOSÉ CRAVEIRINHA
Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José Craveirinha

Um grande beijinho


Isabel

5:13 da tarde  

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