quinta-feira, janeiro 21, 2010

Escrevo-te a sentir tudo isto

Imagem de Alexis Gorodine aqui


escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar


Al Berto
(in O Medo)
.

11 Comments:

Blogger Maria said...

Tão angustiado, tão Al Berto...
Também ele partiu cedo demais.

Beijinho, Ana

5:47 da manhã  
Blogger A.S. said...

Querida Ana...

Será essa a imagem de um coração que ama? A imagem traduz fielmente as palavras de Al Berto!
E também traduz a tua enorme sensibilidade de mulher...

O meu beijo!
AL

9:14 da manhã  
Blogger maria manuel said...

uma incapacidade de ser simplesmente feliz (um rio, uma borboleta,...), uma percepção de dor, de doença, que Al Berto sempre conseguiu exprimir tão poeticamente.

um beijo, Ana.

10:42 da manhã  
Blogger Carlos Machado Acabado said...

Estimulante revisitar o Al Berto aqui na "Encosta"!...
[E tu, Ana?
Que se passa contigo que num mais "por lá" apareceste?...]

2:43 da tarde  
Blogger Isamar said...

Partiu muito cedo. A saudade dói. Relê-lo atenua a dor da sua ausência.

Bem-hajas!

Beijinhos

3:44 da tarde  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
Um agradecimento especial para alguém especial, que sei que me lê no original, sejam os sentimentos, as histórias ou, até, o que se esconde na arca...
Um beijo
Daniel

7:23 da tarde  
Blogger Vieira Calado said...

Ao começar a ler (sem minimamente saber de quem era) vi logo que se tratava dum excelente manipulador
de palavras...

Vê-se logo...


Beijinhos

10:16 da tarde  
Blogger Maripa said...

Al Berto,o poeta que me faz sentir uma dor fininha por dentro...

Que pena deixar-nos tão cedo.

Bem-hajas pela partilha.

Beijinho,Ana.

12:41 da manhã  
Blogger ADiniz said...

Consegui atingir a dor sentida ao ler,
e vale o arder na poesia
da palavra amor.

Bjinhos e um final de semana feito lua crescente pra vc Ana

10:04 da tarde  
Blogger Baby said...

"repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar"

Simplesmente lindas e profundas estas palavras sentidas.

Beijinhos.

10:30 da manhã  
Blogger . intemporal . said...

.

. tão cedo ao ser tão tarde re.dizer Al Berto .

. sublime e bel.íssimo .

. um bom Domingo .

. sempre, .



. paulo .

.

3:58 da tarde  

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