sábado, janeiro 08, 2011

Ao longe os barcos de flores

Nympheas (Monet)


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora.

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora ...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
cauta, detém .. Só modulada trila
A flauta flébil ... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora ...


Camilo Pessanha
(in Clepsydra)

.

12 Comments:

Blogger hfm said...

Um dos mais belos poemas de Pessanha e que nunca esquecerei como o ouvi comentado por Urbano Tavares Rodrigues... um mar de metáforas e de outros sentidos para além do simples significado das palavras.

Um dos meus poemas de eleição.

4:42 da tarde  
Blogger Maria said...

Belíssimo poema para um fim-de-semana de chuva :)))
Bom voltar a ler-te aqui.

Beijo, Ana.

10:32 da tarde  
Blogger Isamar said...

O poder encantatório da poesia num poema escolhido com a sensibilidade que te caracteriza.

Bem-hajas!

Beijinhos

10:26 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
sim,
ao longe
os barcos são flores,
pétalas a vogarem
num canteiro aquático !
,
conchinhas
*

2:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

poesia, Monet e mais poesia. aqui, sempre. beijos, Ana.

6:28 da tarde  
Blogger musicaquatica said...

Este comentário foi removido pelo autor.

6:46 da tarde  
Blogger musicaquatica said...

remi-la, re mi la...

não serão estas as notas com que se exprimem os compositores?

será Pessanha (seja ele real ou uma invenção)um compositor de palavras?

serão de música as palavras?

um beijo,

isabel:)

6:49 da tarde  
Blogger Ana Echabe said...

Este poema me fez lembrar uma estória onde o flautista capturava o coração por encantamento a quem lhe ouvisse tocar, seduzidos eram então guiados pelo som mágico do flautista que perambulava pelos vilarejos.
Poemas ou contos ou outras estórias reproduzem uma imagem nítida da palavra desejada quando representada pela musica ou um instrumento.
Bárbara magia.

Querida Ana mais uma vez desejo-te um ano feito em Sol Maior a vc.
Bjnhos.

2:31 da tarde  
Blogger Carla Tavares said...

Subscrevo os comentários anteriores e dou-lhe os parabéns pela escolha da imagem. Pessoalmente adoro Monet e este quadro é um dos meus favoritos. O quadro foi criado quando Monet já estava quase cego. No jardim de sua casa, onde morreu, existiam os nenúfares que ele reproduziu em vários dos seus quadros.

10:41 da manhã  
Blogger © Maria Manuel said...

sempre melodiosos e sensoriais os poemas de Camilo Pessanha. belíssimo!

beijo, Ana :)

7:12 da manhã  
Blogger Maré Viva said...

Lindíssimo poema e bela e suave a imagem que o enfeita.

O teu bom gosto sempre à flor da pele.

Beijos.

4:15 da tarde  
Blogger A.S. said...

Mas que delicia Ana! Quando venho à tua Encosta... não tenho vontade de sair!...

Beijosss!
AL

7:50 da tarde  

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