sábado, novembro 20, 2010

Poema

Foto de Ben Goossens




Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como os amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca



Mário Cesariny
(in Pena Capital)

.

16 Comments:

Blogger hfm said...

Para lá das palavras a coerência feita realidade!

9:08 da manhã  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
O teu espólio poético é como se fora um livro de significados...
Um beijo
Daniel

10:35 da manhã  
Blogger Iris_Esfenoidal said...

Este comentário foi removido pelo autor.

4:35 da tarde  
Blogger Iris_Esfenoidal said...

de facto,

apenas vive o que se sente

tudo o resto, por mais iluminado que seja, não existe

obrigada pela sempre bela partilha

isabel

4:37 da tarde  
Blogger Baby said...

Mário Cezariny, com o seu quê de belo e de diferente!

Beijo.

6:03 da tarde  
Blogger tulipa said...

As sombras existem
sempre existiram na minha vida

Mas, as saudades que tenho de ti
espalham-se pelo chão
deixam-me vazia...

Luto
sim, podes acreditar
que luto, para
não precisar tanto
mas...tanto,
das minhas amigas
Deus,
quando me irei curar
deste mal?

Beijos.
Boa semana.

7:58 da tarde  
Blogger ADiniz said...

Crepúsculo
Ausência de luz
Sombra é a envaidecida parte que se expande para o exterior da cumeada luz profunda.

Sempre me surpreendendo com suas escolhas, já tinha estado por aqui, mas ainda precisei de mais um tempo pra comentar, andei com o pé na estrada e outro cá, mas pronto cá estou e pra já te desejo uma semana feita esta lua toda cheia de graça.
Bjinhos Ana.

4:46 da manhã  
Blogger maria manuel said...

«lâmpadas nos dedos e na boca», fabulosa imagem de um poema em que evoca a força das sombras na evidência da luz, ou não fosse Cesariny pintor do surrealismo, além de escritor.

beijinho, Ana.

11:16 da manhã  
Blogger Guilherme F. said...

"Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!"
deixa apenas as palavras, duras, riscarem o vidro dos meus cílios...
"Visto a esta luz és um porto de mar "...ao qual eu regresso. agradeço as palavras.
bj
Gui
coisasdagaveta.blogs.sapo.pt

1:24 da tarde  
Blogger A.S. said...

Querida Ana,
O poema é lindo! Mas vou revelar-te algo que talvez te surpreenda. Tenho verdadeira fobia pelas sombras. Desde miúdo que tento evitar passar por elas. Ainda hoje esse incómodo se manifesta em mim, não como uma superstição, mas como algo que não sei ainda explicar! Acho que agora ficas a saber a origem da vela vermelha sempre acesa nas minhas páginas!

Beijos
AL

4:34 da tarde  
Blogger Cristina Fernandes said...

Um dos grandes poetas que devemos sempre reler, outra e outra vez...
Beijinho,
Chris

6:24 da tarde  
Blogger Tod(as) palavras said...

por tudo, mas sobretudo por "a sombra dita a luz" o poema é extraordinário. (muito breve, Ana, as palavras já estão voltando.) beijo.

6:43 da tarde  
Blogger Vieira Calado said...

Bem bom!

Saudações poéticas

10:43 da tarde  
Blogger Jorge said...

http://ladocego.blogspot.com/

3:02 da manhã  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
Cesariny, que escolha !!!
,
quero a Luz,
das antecipadas auroras,
precursoras
dos clarificados dias !
,
Conchinhas,
,
*

2:31 da tarde  
Blogger BRANCAMAR said...

Poemas sempre perfeitos e plenos de mensagem, os de Cesariny.
"A sombra dita a luz" e ainda bem. Tal como o Albino não sou muito amante de sombras, embora reconheça a singularidade de algumas que em plena natureza se espalham na hora do mais alto sol.

12:33 da tarde  

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