terça-feira, junho 14, 2005

As palavras interditas


Foto in Público


Os navios existem e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida , anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E abrem-se janelas
mostrando a brancura das cortinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas minhas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
e estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens vivas, desenhadas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


Eugénio de Andrade

7 Comments:

Blogger lique said...

Lembrá-lo-emos sempre. Leremos uma vez e outra as suas palavras. E serão sempre fonte de beleza. Beijinhos, Ana

10:51 da tarde  
Blogger AS said...

(...)
"Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?"
(...)

Ele continuará entre nós presente em cada palavra que deixou...

9:57 da manhã  
Blogger Cerejinha said...

Vai-se o o "Eu", mas fica o "Génio", para sempre vivo nas suas palavras.

5:29 da tarde  
Blogger heloisa said...

UM ABRACO MINHA AMIGA!
E... os *POETAS*, nao MORREM, so' oseu "corpo", deixa de ser visivel por nos!
Heloisa.
***************

6:27 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Espaço de alma
distancia de luz
equilibrio

Fundo, forma
reflexo, cor
espaço de luz

nterior

o poeta continuará sempre... no interior de cada um.

beijinhos
vento

9:35 da tarde  
Anonymous zezinho said...

"Subterrâneo Rio

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?"

Eugénio de Andrade

Ana, o meu beijo de saudade e de profunda amizade.
Porque tu és um ser humano excepcional.

11:17 da tarde  
Blogger AS said...

Eugénio de Andrade estará sempre presente... SEMPRE!...

Um beijo para ti Ana

9:23 da manhã  

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