sábado, março 14, 2009

Arrojos




Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.

Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o nome das estrelas.

Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.

Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas penas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.

Se a Laura dos meus loucos desvarios
Fosse menos soberba e menos fria,
Eu pararia o curso aos grandes rios
E a terra sob os pés abalaria.

Se aquela por quem já não tenho risos
Me concedesse apenas dois abraços,
Eu subiria aos róseos paraísos
E a Lua afogaria nos meus braços.

Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas
Eu ergueria os vales mais profundos
E abalaria as sólidas montanhas.

E se aquela visão de fantasia
Me estreitasse ao peito alvo de arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.


Cesário Verde
(in O Livro de Cesário Verde)


.

Segundo o dizer de Fernando Pessoa, que muitas vezes ocupou a mesa do Martinho da Arcada representada na foto, Cesário Verde foi um mestre que "ensinou a observar em verso".


.

15 Comments:

Blogger ADiniz said...

Viver nas ilusões da vida
é como cavalcar.
O movimento nos relaxa,
a paisagem escolhemos,
mas a longa distancia,
cansa entre as pernas.
Mas ainda assim voltaremos a cavalgar.
Por isso somos capaz de "abalar sólidas montanhas".
Que maravilho isso.

Bjs do sul do Brasil.

2:21 da manhã  
Blogger Isamar said...

Uma imagem muito bonita. Traz-me saudade mas só se tem saudade daquilo que nos deixou marcas muito boas, inesquecíveis.
Quanto ao poema,um sujeito poético apaixonado por uma Laura que não lhe corresponde.
Apesar disso, muito bonito. Perpassado de amor/paixão.

Beijinhos, amiga!

Bem-hajas!

8:12 da manhã  
Blogger Amaral said...

É fantástico como certos poetas têm esse dom de aplicar a simplicidade, versejando cada pormenor do dia-a-dia.
Lembras que Cesário nos "ensina a observar em verso"...
Basta ler e concluir, é verdade! E a sua poesia vai muito além porque alia essa facilidade com os sentimentos onde toda a gente se revê...

10:57 da manhã  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
E que belo é aquele recanto.
Um beijo
Daniel

3:16 da tarde  
Blogger Lmatta said...

lindo poema
bela foto
beijos

3:41 da tarde  
Blogger Maria said...

Que bom teres trazido Cesário verde aqui. Raramente o vejo. E é tão bonito de se ler...

Obrigada, Ana.

Beijinhos

9:14 da tarde  
Blogger poetaeusou . . . said...

*
cesario verde
lá continua,
na avenida da liberdade,
seguindo o deslizar dos cisne,
e continuando esquecido
nas escolas . . .
,
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
,
in-cesário verde,
,
*

11:04 da tarde  
Blogger Spectrum said...

as nossas escoelhas definem-nos, Ana. Cesário, é provavelmente um dos maiores poetas portugueses de sempre. infelizmente pouco divulgado. Adoro passar cá por casa, amiga. estás bem?
Beijos

7:35 da tarde  
Blogger maria m. said...

a intensidade desta declaração amorosa!

um beijo, Ana.

9:39 da manhã  
Blogger Pico minha ilha said...

Um poema que não conhecia.A imagem bonita.Beijinho Ana

5:46 da tarde  
Blogger tulipa said...

Gosto de olhar pela janela e ver o dia de sol radiante que fez hoje e fará nos próximos dias...

Huummmm...tanto Amor e Paixão anda no ar; já com cheiro a Primavera o Amor vai começando a brotar dos corações de quem está enamorado.
Encontros e desencontros.
Sentimentos em efervescência.

Votos de boa semana.

NOTA: aviso que está patente ao público a minha 2ª exposição de fotografia, agora num Bar cá na Moita.

9:43 da tarde  
Blogger ~pi said...

olhar com

olhos-de-estrelas

( melan

colica

mente,





beijo




~

12:57 da tarde  
Blogger lupussignatus said...

um rio

[de candura]

no olhar

1:47 da tarde  
Blogger A.S. said...

Querida Ana... Como Pessoa tinha razão!!!
Cesário Verde partiu muito novo e nunca lhe foi verdadeiramente reconhecido o seu talento! Há tanta gente menor alvo de homenagens, e Cesário - um dos maiores vultos da poética portuguesa - apenas é lembrado por pessoas como tu... que amam e vivem a Poesia!
Obrigado Ana! Foram deliciosos os momentos que me proporcionaste!


Um beijo

2:10 da tarde  
Blogger Pedro Branco said...

Se a saudade me rompesse a alma
Se queimasse de longo meu peito aberto
Saberia ter-te de novo, em maré calma
Perdida entre mim, que sempre me quedei perto

Se o silêncio quebrasse o teu olhar
Se cantasse um minuto que fosse a nossa estrada
Poderia adormecer aconchegado sem nunca acordar
Por entre a minha mão embriagada

Que na fuga do tempo somos pobres
No calor do coração amadores
Na vertigem, saltimbancos
No horizonte, cegos...

9:56 da tarde  

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