sexta-feira, março 27, 2009

Atrium - (excerto)


Foto de Silenciosamente
(www.olhares.com)



(...)

________ hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi : aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar ...
________ releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar : as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas já não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo, o vazio devora-nos. onde estivémos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

________ não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas de um espaço oco prescruto o eco do meu corpo, o silente medo de continuar vivo.
________ sento-me no cimo do meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.



Al Berto
(in À Procura do Vento Num Jardim D'Agosto)


Ainda em cena, até 5 de Abril, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, A Noite , um espectáculo do Teatro O Bando, com base na poesia de Al Berto.

.

14 Comments:

Blogger Isamar said...

Al Berto, uma saudade que o tempo jamais apagará.Com a sua partida, prematura, todos ficámos mais pobres. Tinha tanto para nos dar!

Bem-hajas, amiga!

Ler-te é sempre um prazer muito grande.

Beijinhos

Bem-hajas!

8:33 da tarde  
Blogger ADiniz said...

Boa noite Ana!

Que lindo este poema.Hoje serviu como uma luva, para o meu dia.
Não conhecia, mas já vou pesquisar mais sobre Al Berto.
Gostaria de poder estar ai para assistir esta Peça.
Muito obrigada pelo presente.
Bjs

12:58 da manhã  
Blogger Maria said...

Um Poeta que partiu antes de tempo.
E com um enorme sofrimento...

Um beijo, Ana

3:26 da manhã  
Blogger Paulo - Intemporal said...

Al Berto sempre Al Berto

num tempo que se imortaliza à nascença
_____________________________

para ser presença constante
_____________________________

um beijo meu

10:56 da manhã  
Blogger maria m. said...

belo e sentido texto de Al berto!

também eu espero dias «com algum sonho, ou destino, mais feliz.»

beijo, Ana

10:08 da manhã  
Blogger hfm said...

Sempre ele sempre belo!

1:21 da tarde  
Blogger Baby said...

Que nunca percamos a vontade de abrir a nossa janela e debruçar-nos sobre o abismo do nosso eu, para que mais fácilmente possamos compreender os que nos nos rodeiam.

Perante este poema maravilhoso, podemos dizer que Al Berto não partiu, estará sempre connosco através da sua obra.
Obrigada a ti, que o trouxeste.
Beijinho.

2:53 da tarde  
Blogger meus instantes e momentos said...

é muito bom voltar ao teu blog, gosto daqui.
Maurizio

6:14 da tarde  
Blogger Maripa said...

Silenciosamente...tento guardar as palavras de Al Berto.

Beijinho, Ana. Obrigada.

8:22 da tarde  
Blogger ~pi said...

traço da noite bela

onde a lua se vai dizendo

vermelha

ocre

( ? a querer ocupar uma casa

maior




beijo




~

1:38 da tarde  
Blogger lupussignatus said...

palavras

que

queimam

7:35 da tarde  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Ana
Reflexões que se ajustam a diferentes veículos culturais, mostrando a grandeza da obra, da mensagem.
Um beijo
Daniel

12:48 da manhã  
Blogger Fernando Rozano said...

dos textos mais lindos que li....extraordinário post, Ana. beijo e saudade.

3:01 da tarde  
Blogger isabel victor said...

Al Berto. Sempre


(encosta de murmúrios. gostei deste belo sitio)


abraço


iv

10:59 da tarde  

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